Os apressados

Texto de D(i)jalma Nunes Grandi
“No fim, os impertinentes somos nós mesmos. Como acontece que a cada satisfação corresponde uma decepção, vamos à procura de outras vaidades, substitutas, que poderão ser numeradas, catalogadas, classificadas, para depois serem abandonadas.
Nossos dias estão sofrendo de aceleração gradativa. Com essa história de foguetes espaciais, parece que a mania de empuxos para a arrancada vai contagiando os homens. Todos querem ganhar tempo perdendo-o depois não se sabe com o que. Ser ligeiro nas pernas, de mãos, de raciocínio. Ser rápido na competição, adiantar-se a todos, vencendo obstáculos. Não faz mal que na precipitação o sujeito deixe um pedaço dos bofes, não importa que seu estômago se pareça com uma fornalha de olaria digerindo tijolos requeimados. O essencial é andar aos trancos e barrancos.
Ninguém pensa em alternar a pressa com a calma. Não há tempo para isso. Viver é agitar-se, sair de si mesmo, estafar-se. Quem não faz isso não é digno de deitar-se numa cama à noite para gozar de uma insoniazinha permanente.
Um belo dia o apressado acorda abatido. Começa a querer mudar. Começa a pensar em gozar devagar aquilo que lhe custou tanta correria. Sentado na cama, de pijamas, com um cigarrinho a engomar-lhe os lábios, com um primeiro cafezinho, o homem pela primeira vez na vida ‘deixa-se’ cair novamente no travesseiro e manda a vida às favas. Vai começar a desmoralizar a insônia.”
2 de abril de 1961, trecho selecionado por Cristiane Grandi.
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